quarta-feira, 29 de setembro de 2010
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
O Molho Tártaro

Eram 15 segundos preciosos. Vivíamos, naqueles tempos, as delícias das analogias proporcionadas pelo acúmulo do conhecimento. Apenas assim era possível entender a graça do comercial. Só para constar, os Tártaros eram um povo bárbaro que viveu por aproximadamente cinco séculos, três antes e dois depois de Cristo. Eram mongóis que durante muito tempo foram liderados por Átila, o Huno. Pois é. E tudo isso na TV aberta! Até porque nem havia cabo naqueles idos. E todos comentavam e se deliciavam com a perspicácia do criativo responsável.
Mas tudo isso é passado. Assim como na publicidade, o Brasil regrediu muito naquilo que mais interessa para um país que se pretende sério e respeitado: o conhecimento e o aprendizado. Hoje, quando o acúmulo de conhecimento das novas e nem tão novas gerações beira o zero absoluto, as analogias são impossíveis. Tudo é aquilo por aquilo. Tudo beirando o rés do chão. E quanto mais medíocre, mais valorizado. Tudo arrematado com o contraponto de ferozes ataques a qualquer iniciativa de cultura ou conhecimento coletivo.
Não, não se trata de nostalgia barata. Mas de uma cara constatação consternada de que as coisas desmoronam ao redor enquanto a impotência reina, uma vez que qualquer tentativa de argumento intelectual morre afogada num oceano repleto de ondas violentas de estupidez.
O mal é perspicaz. O mal realmente mau traveste-se de bem e, nesse nosso contexto nacional, apodera-se de medianas melhoras, reflexos de aprimoramentos globais, para criar a ilusão de um país do futuro agora, quando jamais estivemos tão distantes dessa meta. Não há progresso na ignorância. Não há bem-estar na burrice.
Trata-se realmente de um beco sem saída. O atual governo reduziu tudo à essência do nada, de uma verdadeira ode ao não-saber. Já estamos numa ditadura onde dados pessoais privados são manipulados politicamente, onde as instituições republicanas derretem ao calor dos crimes impunes e o culto à personalidade de uma nulidade cresce a passos largos. E o pior: ninguém diz nada. Onde estão nossos intelectuais? Nossos artistas? Nossos pensadores? Ninguém critica. Ninguém levanta a voz, anestesiados que estão pela morfina do “está tudo bem”.
Não. Não está. E, de repente, me pego em situações inusitadas e esdrúxulas que jamais imaginei serem possíveis. Eu, que lutei pelas eleições diretas quando os tanques ainda rondavam as ruas, começo a entender o até então incompreensível apelo aos militares por uma salvação impossível em coisas como a famigerada Marcha da Família com Deus pela Liberdade, de tão triste memória em suas consequências. Como isso pode acontecer?
E é tudo tão claro visto de fora! O partido do governo acusa-se como vítima de uma imprensa que nunca foi tão subserviente ao poder. Tudo estudado. Tudo seguindo uma cartilha espúria de projeto autoritário de longo prazo. E dia a dia a liberdade se esvai com a louvação ao não-pensar.
Fato contemporâneo, o mundo virtual tem papel preponderante nisso. Ainda mais que apenas os corvos da neo-ditadura já aprenderam a utilizá-lo eficaz e adequadamente em seu benefício e em prol de seus planos de poder pelo poder. Para os menos atentos, reparem no final de cada reportagem dos principais jornais on-line. Com o supostamente admirável rótulo da liberdade de expressão, abre-se o terreno da informação a qualquer tipo de comentário, deixando livre o ambiente para a proliferação daquilo de pior que o ser humano produz quando oculto ou em conjunto, ou mesmo quando formam grupos ocultos, incluindo-se aí os partidários da atual ditadura em curso.
Trata-se, esse éter informático, de um universo onde todos dizem o que bem entendem. Reacionários brilham. Ineptos triunfam. Quadrilhas pagas e bem instruídas subvertem a verdade, maltratam-na, matam-na, enquanto caluniam a inteligência. O caráter, berço das diferenças de ideias, jaz inerte numa escuridão sem réstia de luz. E já não há para onde olhar com esperança, com twitters e facebooks praticando estupros consentidos de individualidades por todos os lados.
Vivemos tempos bárbaros. Ou tártaros, não importa. A ignorância está vencendo.
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