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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Jingle Bells

    

O Natal é extremamente interessante quando visto ao longe, de camarote, em visão panorâmica.

Não. Esse não é o início para mais uma elocubração sobre as irrealidades da época, o Papai Noel made in Coca-Cola ou a surreal ode ao consumismo, lugares comuns que tentam organizar criticamente aquilo que nada mais é que um analgésico adicional da existência em pleno verão. Incentivada inclusive por esse sol que nos abençoa para cá do equador nessa época, paira uma luz sobre a minha alma. Chamo-a de luz do Natal. E por mais alto que seja o nível de consciência que eu tente alcançar ela sempre vem, imperiosa e carregada de imagens, sons, sabores e cheiros da infância.

Não. Que não se iludam os leitores com o início de longas reminiscências sobre uma infância iluminada e feliz. Não é o caso. As lembranças talvez até estejam envoltas em celofane brilhante, mas isso é mero bônus das benesses com que às vezes o inconsciente nos assoma. Também não me refiro a desastres e tristezas épicas tão comuns nessas latitudes. Nada disso. Coisas comuns, família comum com tudo o que isso significa de positivo e negativo. Tampouco essa luz natalina que me assombra vem carregada de um espírito gregário. Aprendi há muito a graça da solidão, principalmente nesses momentos de espasmos sociais derretendo-se em calda de confraternização e suposta solidariedade com uma cereja de fraternidade em cima.

Isso posto, voltemos à luz do Natal e seus sinos e símbolos. Eles me enchem a alma como ícones que são, ao mesmo tempo distantes e ricos de uma religião qualquer. O recolhimento, quando lapidado por décadas, acreditem ou não, traz a felicidade. Enquanto multidões a procuram em aeroportos, estradas e rodoviárias encalacrados de esperanças vãs, esse simples espetáculo do desnorteio humano acontecendo a uma certa distância assegurada pelo cordão de isolamento do distanciamento pessoal é um bálsamo. Traz um sentido de plenitude que nenhuma ceia seguida de missa do galo é capaz de proporcionar.

E é assim que, inexoravelmente, acabo mais embebido de Natal que muita gente preocupada em ostentar azevinhos e anjos. Deparo-me comigo mesmo encharcado de uma data que, interiormente, organizo por outro nome. Um apelido. Nada original, já que os americanos o fizeram primeiro, comemorando em novembro uma data que, para eles, é ainda mais simbólica e importante que essa, o thanksgiving.

Desse modo, para mim, o Natal, como ponto mais agudo de um hábito metódico, é dia de agradecer. Sentir a plenitude de tudo o que existiu até hoje e os presságios daquilo que ainda está reservado. As canções natalinas embalam sonhos, as guirlandas trazem fadas mágicas, o ar aromas insuspeitos e, assim, dá-se a luminosidade do Natal. Pelo menos para mim, nesse meu pequeno camarote interior.

Jingle Bells!


   

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O Molho Tártaro

   

Lembro-me de um comercial para TV dos tempos em que a publicidade brasileira ainda era respeitada e premiada pela sua criatividade, inteligência e competência. Tratava-se do lançamento do molho tártaro pronto, da Cica, novidade de 1984. No filme, um mongol vestido a caráter apresentava o produto e era interrompido por uma voz feminina em off: “é bárbaro!”, no que era imediatamente corrigida pelo mongol irritado: “não, é tártaro!” E assim se fazia a mágica da apresentação e venda de um produto de uma forma muito distante das gritarias “varejísticas” de hoje.

Eram 15 segundos preciosos. Vivíamos, naqueles tempos, as delícias das analogias proporcionadas pelo acúmulo do conhecimento. Apenas assim era possível entender a graça do comercial. Só para constar, os Tártaros eram um povo bárbaro que viveu por aproximadamente cinco séculos, três antes e dois depois de Cristo. Eram mongóis que durante muito tempo foram liderados por Átila, o Huno. Pois é. E tudo isso na TV aberta! Até porque nem havia cabo naqueles idos. E todos comentavam e se deliciavam com a perspicácia do criativo responsável.

Mas tudo isso é passado. Assim como na publicidade, o Brasil regrediu muito naquilo que mais interessa para um país que se pretende sério e respeitado: o conhecimento e o aprendizado. Hoje, quando o acúmulo de conhecimento das novas e nem tão novas gerações beira o zero absoluto, as analogias são impossíveis. Tudo é aquilo por aquilo. Tudo beirando o rés do chão. E quanto mais medíocre, mais valorizado. Tudo arrematado com o contraponto de ferozes ataques a qualquer iniciativa de cultura ou conhecimento coletivo.

Não, não se trata de nostalgia barata. Mas de uma cara constatação consternada de que as coisas desmoronam ao redor enquanto a impotência reina, uma vez que qualquer tentativa de argumento intelectual morre afogada num oceano repleto de ondas violentas de estupidez.

O mal é perspicaz. O mal realmente mau traveste-se de bem e, nesse nosso contexto nacional, apodera-se de medianas melhoras, reflexos de aprimoramentos globais, para criar a ilusão de um país do futuro agora, quando jamais estivemos tão distantes dessa meta. Não há progresso na ignorância. Não há bem-estar na burrice.

Trata-se realmente de um beco sem saída. O atual governo reduziu tudo à essência do nada, de uma verdadeira ode ao não-saber. Já estamos numa ditadura onde dados pessoais privados são manipulados politicamente, onde as instituições republicanas derretem ao calor dos crimes impunes e o culto à personalidade de uma nulidade cresce a passos largos. E o pior: ninguém diz nada. Onde estão nossos intelectuais? Nossos artistas? Nossos pensadores? Ninguém critica. Ninguém levanta a voz, anestesiados que estão pela morfina do “está tudo bem”.

Não. Não está. E, de repente, me pego em situações inusitadas e esdrúxulas que jamais imaginei serem possíveis. Eu, que lutei pelas eleições diretas quando os tanques ainda rondavam as ruas, começo a entender o até então incompreensível apelo aos militares por uma salvação impossível em coisas como a famigerada Marcha da Família com Deus pela Liberdade, de tão triste memória em suas consequências. Como isso pode acontecer?

E é tudo tão claro visto de fora! O partido do governo acusa-se como vítima de uma imprensa que nunca foi tão subserviente ao poder. Tudo estudado. Tudo seguindo uma cartilha espúria de projeto autoritário de longo prazo. E dia a dia a liberdade se esvai com a louvação ao não-pensar.

Fato contemporâneo, o mundo virtual tem papel preponderante nisso. Ainda mais que apenas os corvos da neo-ditadura já aprenderam a utilizá-lo eficaz e adequadamente em seu benefício e em prol de seus planos de poder pelo poder. Para os menos atentos, reparem no final de cada reportagem dos principais jornais on-line. Com o supostamente admirável rótulo da liberdade de expressão, abre-se o terreno da informação a qualquer tipo de comentário, deixando livre o ambiente para a proliferação daquilo de pior que o ser humano produz quando oculto ou em conjunto, ou mesmo quando formam grupos ocultos, incluindo-se aí os partidários da atual ditadura em curso.

Trata-se, esse éter informático, de um universo onde todos dizem o que bem entendem. Reacionários brilham. Ineptos triunfam. Quadrilhas pagas e bem instruídas subvertem a verdade, maltratam-na, matam-na, enquanto caluniam a inteligência. O caráter, berço das diferenças de ideias, jaz inerte numa escuridão sem réstia de luz. E já não há para onde olhar com esperança, com twitters e facebooks praticando estupros consentidos de individualidades por todos os lados.

Vivemos tempos bárbaros. Ou tártaros, não importa. A ignorância está vencendo.


domingo, 8 de agosto de 2010

O Oriente é Estreito



Trata-se, amigos, de um título capcioso esse.

Temos uma forma, uma prerrogativa para tudo. Palavras e verbos inclusive. E a estreiteza nos leva sempre à noção de restrição e limitação.

Mas as coisas se invertem de acordo com as coordenadas geográficas. As latitudes e longitudes culturais trazem surpresas.

Outro dia, no parque, vislumbrei uma velha senhora japonesa sentada, a ler, num banco qualquer. Tinha entre os dedos miúdos um pequeno livro dobrado de forma que sobrava apenas uma tira de papel. Compenetrada estava, com a rigidez e a solenidade pacífica naturais aos orientais. Parecia imutável e inabalável. Ficava claro que, se alguém violento a ameaçasse ali ela simplesmente faria uma reverência e se retiraria em silêncio.

Essa cena me fez pensar. A própria forma de escrever e ler em japonês denota a essência do seu povo. A escrita japonesa não possui o despudor da horizontalidade do ocidente. Não requer livros abertos e espalmados. Uma linha contém uma ideia que cabe numa tira estreita que se aconchega entre os dedos. Liga dois pontos de forma vertical. Céu e terra. Como a perfeita tradução daquele quadro que eu vislumbrava.

Aquela senhora sabia seu lugar. Ponto na terra ligado ao divino em linha estreita e direta. O que lhe cabe é o ponto na superfície onde se encontra. Não havia ímpetos de se espalhar ou ânsia de abrangência. Nada de ocupar um espaço além do necessário e do devido.

A verticalidade exige equilíbrio. E quanto mais estreita a linha maior a destreza e a delicadeza para que as coisas se mantenham e a paz se componha. A estreiteza é, nesse contexto, sinônimo de sabedoria e talento exímio frente à existência.

Não sei quanto mais aquela leitura durou. Mas entendi a força que os elementos têm quando em perfeitas sintonia e harmonia.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Honra ao Mérito

   

Sou do tempo da medalha de honra ao mérito. Alguns podem argumentar que existiam medalhas demais naqueles idos, e é verdade. Medalhas militares de governantes biônicos. Mas essas faziam parte de um outro universo.

As minhas medalhas, essas a que me refiro, eram obtidas na escola sempre que um aluno se destacava por qualquer motivo em qualquer área. Era um tempo de Honra. E Mérito. Assim mesmo, com letras maiusculamente garrafais. Os pais se orgulhavam dos seus filhos quando esses eram laureados e, quando não o eram, incentivavam os pequenos para tal. Aqueles pequenos símbolos de sucesso eram pregados orgulhosamente em quadros nas paredes dos quartos ou, quando não havia possibilidade e espaço, em caixas de sapato primorosamente promovidas a um tipo de baú de tesouros.

Os professores, por sua vez, faziam a sua parte como catalisadores desse processo salutar de saltos quânticos de aprendizado e saber. Hoje, é muito duro constatar, a honra já não significa muito e o mérito vale absolutamente nada. Senão, como explicar professores da rede estadual de São Paulo protestando nas ruas CONTRA a meritocracia como balizadora de salários? Pergunte-se a esses pretensos educadores: existe outra saída para uma classe que forma alunos analfabetos funcionais?

Alguns dizem que essa era uma manifestação derivada de uma greve política. Mas, calma aí! As tendências e vertentes políticas não deveriam andar distante da educação? Ou será que percorremos tão pouco caminho desde o tempo dos quepes no poder? Ali sim, as escolas e professores eram obrigados a determinadas linhas de conduta e ensino. Mesmo assim, ousada e bravamente, esses educadores de então resistiam e, pasmem as novas gerações, ensinavam! Isso por amor ao ofício e à responsabilidade de professor, correndo, muitas vezes, riscos pessoais.

Por outro lado, e como um espelho distorcido e às avessas, nossos professores de hoje limitam-se não a resistir, mas a vestir a carapuça pelega de um pretenso poder popular que honra o demérito, a ignorância e o semi-analfabetismo.

Onde vamos parar? Lutei em passeatas amarelas pelo direito de viver em um estado democrático e de direito. É hora de questionar: Existe democracia e direito onde não há honra ou mérito?

É óbvio que não.

 
 

quarta-feira, 10 de março de 2010

Jardinagem

    

Gosto da profissão de jardineiro. Não a trocaria pela de nenhum executivo com jatinho que cruza estressados ares de responsabilidades rarefeitas.

Não me refiro aqui a jardineiro de outrem, suscetível aos caprichos e gostos de terceiros. Falo do jardineiro interior, do jardineiro de mim mesmo, cultivador de minh'alma.

Para tecer os jardins interiores é necessário, acima de tudo, tempo. Tempo e observação. Escolher as melhores flores e folhagens e distribuí-las pelos seus cantos naturais. Verificar o aroma das estações que se anunciam com a regularidade do universo e esperar as consequências vantajosas e cuidadosas de cada uma delas. Examinar, detectar e eliminar as pragas que podem, de um momento para o outro, destruir todo um conteúdo pelo prazer sádico da inveja e da maledicência.

Tarefa árdua essa. Observação plena de variáveis inconstantes. Cuidados cirúrgicos com a delicadeza das tramas de pétalas e folhas. Mas quando tudo está na plenitude dos seus lugares e luzes, quanto brilho!... Quanta recompensa.

Enquanto isso, lá nos ares dos jatos e escritórios suspensos, almas estéreis recriam as receitas de sempre levando-se pateticamente a sério. São decoradas com flores de plástico que, se não morrem, desbotam esvanecendo o falso viço da superficialidade e do artificialismo.

Não são jardineiros, mas sim espantalhos de si mesmos.
 

segunda-feira, 1 de março de 2010

Tristes Ventos

  

O mar não está para peixe.

É deveras inquietante estar atento e colher sinais de distúrbios que ocorrem num grau macro e que, de tão abrangentes, acabam passando por certezas inexoráveis ou desdobramentos tão consequentes quanto inocentes do tempo e da história.

Nesses desvios da existência humana, a apatia impera e o dom de se rebelar contra absurdos se dissolve. É preocupante. Afinal, nunca antes na história desse país tivemos um governo tão alheio à moral e tão desleal à legalidade. E nos amplos espaços pátrios nada se faz, nada se comenta, nada surpreende. Inexiste o espanto. O atual presidente faz campanha descaradamente ilegal e a população, assim como a oposição, não se manifesta. É como se as coisas fossem assim mesmo, fazer o que?

Lembro-me, para efeito de comparação numa linguagem popular, da última cena da novela “Vale Tudo”, de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Brassères, onde nos idos de 1988 um Reginaldo Faria corrupto escapava do país num jatinho com dinheiro originário de golpes e desvios dando uma banana ao território nacional e aos cidadãos de bem. Tudo ao som de uma Gal (ainda) Tropical interpretando um profético Cazuza cantando “Brasil, mostra a tua cara...”. Lembro-me também que houve certa comoção e desconforto por parte dos telespectadores, mas ali mesmo já poderíamos perceber, com boa lupa, o embrião do letal “é assim mesmo”.   (Veja ou reveja aqui)

O que assistimos hoje - e infelizmente distante da ficção televisiva - é o esgarçamento do tecido moral de uma população que nunca primou pela atenção e pela indignação frente às situações dissolutas. Mesmo com campanha antecipada e ilegal, a candidata desconhecida e inexperiente do atual presidente ganha votos e se aproxima de uma vitória que nos leva, lenta e gradualmente, a transformarmo-nos numa grande Venezuela. O que cega e insensivelmente não nos damos conta é que já temos todos os componentes para isso, de Lula a Garcias, de Amorins a Dirceus, entre tantos luminares desses novos tempos.

Entretanto, para não nos fixarmos no terreno pantanoso da discussão política, podemos voltar ao ambiente das ondas da televisão e analisar a mais recente edição do reality show mais popular do país, o Big Brother Brasil 10.

Antes de qualquer coisa e servindo como mais um alerta, muita gente boa, sem nenhuma razão consistente, torce o nariz para o tal programa ao mesmo tempo em que se traveste de samambaia frente aos indícios muito mais dramáticos advindos do Planalto Central. E esse é outro sinal de que as coisas não vão bem com a inteligência nacional...

Mas voltemos ao programa que nada mais é que uma eleição direta semanal que envolve boa parte do Brasil: nessa edição, o participante protegido e adorado, que caminha a passos largos para a vitória e para o prêmio de 1,5 milhão de reais, é um homem manipulador, preconceituoso, ignorante e sem nenhum pudor, escrúpulo ou caráter. E a quantidade de pessoas que se dispõem a defendê-lo, mesmo publicamente, a começar pelo diretor da programação, é o exemplo acabado da dissolução e corrosão do caráter nacional.

No país que nunca antes subornou e comprou tantos cidadãos com bolsas-para-tudo, a ausência macunaímica de caráter passou a ser a regra. E sem caráter, a estrutura moral cede tal qual edifício com alicerces corrompidos.

É. Estamos, de fato, num momento histórico tingido de cinza. São ventos tristes que trazem a angústia característica das situações onde cidadãos de bem valem muito menos que aqueles dotados de certa esperteza psicótica embasada pela teoria de que os fins justificam os meios e pessoas são apenas componentes a serem utilizados ou descartados em função desses mesmos fins.

Resta, à boa nação brasileira, a noção da precariedade da direção e da natureza dos vendavais. Os ventos vêm e vão. Sopram de cá e de acolá. Mas há sempre o prazer e a satisfação evolutiva embutidos na calmaria.

O resto, como diz a sabedora popular, é ventania. 
    

domingo, 24 de janeiro de 2010

Os danos irreparáveis da reforma

   

O povo brasileiro, de fato, possui um parentesco enorme com os bovinos. Não pelo que esses animais são em sua nobreza, utilidade e tranquilidade, mas por aquilo que se convencionou desse comportamento plácido: a inoperância e a obediência bestializada e amorfa.

Isso fica absolutamente claro no caso da reforma ortográfica imposta, no ano passado, pelos burocratas ineptos de plantão. A justificativa de unificar a língua portuguesa não procede até porque países cujos povos são menos aparentados às vacas simplesmente a ignoraram, caso da pátria-mãe Portugal, por exemplo, que simplesmente não a considerou e não se fala mais nisso. Já por aqui... Bem, mais uma vez aceitamos bovinamente o inconcebível.

As pessoas frequentemente querem ser complicadas onde deveriam simplificar e se metem a serem simples e pragmáticas onde a questão é profundamente danosa. E não falo aqui do trema, já praticamente em desuso e, essa sim, uma mudança legítima causada pelo uso de uma língua viva. Nem do charme - agora decaído - de algumas belas junções de palavras com o hífen. Esses são casos que empobrecem a língua, mas possuem alcance menor naquilo que realmente conta: a seara moral das palavras. Sim, as palavras também tem uma moral que faz com que elas signifiquem o que significam em sua plenitude. E, nesse contexto, nenhum grupo delas foi mais aviltado que a ideia e suas congêneres.

Não cabe aqui entrar na demanda de explicações gramaticais. Como já disse, é na moral que reside o desastre. Senão, vejamos, começando pela própria idéia, que nunca terá o mesmo brilhantismo sendo uma pobre ideia que deveria soar, respeitando-se a fonética, com um “e” fechado e inconcluso. Trata-se de um dano moral irreparável. Nesse mesmo sentido, uma plateia (ou, com o perdão da utilização de um outro acento para indicar seu novo som, platêia) nunca será tão vibrante e terá os mesmos aplausos soantes e consoantes de uma boa platéia. E a patuléia, então? Uma forma mais digna e elegante de classificar a plebe ignara passa de palavra quase rara, e por isso valiosa, para a total insignificância de sentido em seu novo som se considerada ao pé da letra. E assim os exemplos se multiplicam.

Entretanto, nenhuma palavra é mais significativa para demonstrar os danos irremediáveis na grandeza da língua que epopeia. Num país já tão pobre de cultura e significados maiúsculos, jamais teremos uma epopéia de fato: Grandiosa. Homérica. Comparar uma épica epopéia com uma “epopêia” é, guardadas as proporções, como comparar um jogo de várzea com a final de uma copa do mundo. Desastroso dano que só poderia advir de um governo analfabeto que não possui a capacidade de entender a extensão daquilo que propõe.

Ficamos, portanto, nós, brasileiros, na posição histórica e ingrata de colônia, agora pateticamente colocada na posição de rato que ruge dando um tiro no próprio pé. O Brasil é, pelo que se tem conhecimento, o único rincão que deu alguma atenção concreta a essa nefasta reforma.

Resta, na terra do samba, suor e cerveja, uma vantagem que retrata bem a natureza da parte positiva da coisa toda: as mulheres extremamente feias, no dito popular, passam a ser, talvez, as únicas (além dos analfabetos de plantão - administração federal inclusa) que tiram alguma vantagem dessa triste fuzarca. Afinal, uma mocreia é sempre menos impactante verbalmente e na sua feiura congênita que uma legítima mocréia.


           

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Deslizando no ônix



Passei meu aniversário na Amazônia. Era um sonho antigo e, como não poderia deixar de acontecer com um sonho dos bons, a intangibilidade quando se torna palpável tem um sabor indescritível de coisa a ser guardada naquele ambiente onde se preserva, tal rosa em livro, a essência de sonho.

Na Amazônia, nos confins da Amazônia, a solidão, a escuridão, a luminosidade e o silêncio são sempre superlativos. De repente percebo, observando o existir passar em paisagem, que o planeta entra nos eixos. De uma forma ou de outra, os amplos espaços vazios construídos de amplidão alinhavada à amplitude elevam a consciência, colocando o ser humano no seu devido lugar na ordem das coisas.

É... Deveríamos, de fato, ser mais raros. Seria melhor assim como nesses sertões úmidos. Não fazemos a menor falta em larga escala.

Enquanto escrevo estou, mais precisamente, no Rio Negro. Há três dias adentro mais e mais esse país. País sem celular, internet, ou qualquer tipo de contato moderno com a realidade contemporânea. Aos poucos a alma se desapega de tudo. Resta a saudade daquilo que realmente faz falta na vida. Daquelas pessoas que são verdadeiramente importantes. O resto cai no devido e merecido limbo das desimportâncias.

E foi nesse contexto das importâncias colocadas nos seus devidos tamanhos e compartimentos que mais cedo, numa viagem de barco, fui tomado de emoção súbita. Vi-me deslizando sobre um mar de ônix. O escuro profundo do Rio conhecido não por nenhum acaso com Negro revelou-me, súbito, onde estava o verdadeiro ouro seu homônimo. Muito se fala sobre o petróleo ou o pré-sal, mas quando se tem o privilégio de regredir às essências acaba-se por perceber onde o verdadeiro tesouro está. E é todo nosso.

Adianto aqui que nunca perdi a noção da pequenez da minha empreitada. Apesar dos dias a fio embrenhando-me na mata, sabia que não percorria um centímetro sequer no mapa do Brasil. E, no entanto, quanto rio!... Quanta vida banhada pelo negro ônix encarnado em autoestrada formada pela grande riqueza que o homem, na sua multiplicação exponencial e futuro cada vez mais sombrio, acaba por ambicionar como bem mais precioso. O néctar que faz a vida possível: A água doce. Amniótico líquido abundante, gentil, fértil e repleto de seres indiferentes ao distante caos que construímos urbanamente. Quilômetros e quilômetros de vida em estado bruto, equilibrada e pulsante como reflexo de um universo que ninguém explica. Réplica aquática do balé estelar das galáxias. Tudo em seu lugar e na sua ordem.

Temperadas, assim, em encantamento, as horas se passaram. E assim foi.

Pássaros e botos coordenaram o entardecer de silêncio cantado em verso e prosa pelos sons da natureza. A noite caiu lenta e soberana. Nenhum aspecto ou pista do vibrar noturno das cidades. Simplesmente a escuridão que ressalta ainda mais a percepção de isolamento e impotência perante aquilo que deve ser a expressão maior do divino.

De repente, por detrás da floresta, surge a lua, eloquente. E com sua luz e reflexos completa os acordes dessa sinfonia perfeita de ensinamentos sobre a verdadeira dimensão das coisas e de nós mesmos.

Resta um agradecimento transmutado em prece. E o reconhecimento das coisas como elas deveriam ser. E sempre serão, de uma forma ou de outra.

A natureza sempre reage. A natureza é sincera. Nós é que embalsamamos os mortos.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Um TAPA na resenha

          

Amigos a gente não critica em público. Na amizade, o que ocorre são toques e opiniões carinhosamente colocadas ao pé do ouvido. Por isso, é sempre um alívio quando pessoas de quem a gente gosta acertam naquilo que fazem.

Foi dentro desse contexto que escrevi o texto a seguir. Uma bela experiência protagonizada por queridos amigos:



Cloaca (Maria Goos) – Resenha

CLOACA: n substantivo feminino

1. fossa, canal ou cano destinado a receber dejeções
2 . coletor de esgoto
3 . vaso sanitário; latrina
4. escoadouro de águas; vala, sarjeta
5. depósito de imundícies; monturo
6 . tudo o que é imundo, que tem mau cheiro
7 . nos anfíbios, répteis, aves e muitos peixes, câmara comum onde os sistemas digestivo, excretor e reprodutor descarregam seus produtos.

(Dicionário Houaiss)


“Vocês não vão me dizer que existe um significado real para a expressão ‘cloaca’... Existe?”

A indagação do político Jan (André Garolli) sobre a expressão usada como saudação pelos quatro amigos de juventude, que frequentaram juntos a faculdade, além de ressaltar toda a sua mediocridade pessoal e profissional dá o tom do argumento dessa peça de autora holandesa sobre o reencontro e balanço de vida entre eles.

De fato, essa indagação, que ressurge duas ou três vezes durante o decorrer do texto, dá pistas profundas daquilo que corre nos subterrâneos daquele encontro que não consegue acobertar as suas faces de desencontro. Além de Jan, Tom, advogado viciado em cocaína (Dalton Vigh), e Marten (Brian Penido Ross), diretor de teatro às vésperas de uma estreia, se reencontram na casa de Pieter (Tony Giusti), um funcionário público gay que se envolve nas relações corporativas que lhe facilitavam o acesso ao arquivo de objetos da prefeitura e acaba acusado de apropriação indébita de obras de arte.

É essa acusação, que coloca em xeque a vida atual e o destino de Pieter, que acaba por reunir novamente os amigos. Jan vive uma crise no casamento exatamente quando, por conchavos políticos, está prestes a se tornar ministro. Para manter as aparências durante o processo, pede refúgio na casa de Pieter. E o fato de estar sendo recebido na casa de um amigo homossexual puxa a primeira ponta de um novelo onde se emaranham preconceitos, interesses, desajustes e frustrações e onde todas as facetas de cada um dos personagens se expõem como metal às intempéries e ao tempo, fazendo com que a amizade não resista aos desgastes e, assim como a ferrugem destrói o mais sólido dos metais, as relações acabam por se dissolver.

O que assistimos durante quase duas horas, acompanhados por uma iluminação exata e emoldurados pelo belíssimo cenário de Lola Tolentino, são diálogos aparentemente superficiais, mas que possuem a profundidade natural dos abismos pessoais de cada um de nós. Os fragmentos de vida expostos sem pudor mostram quatro homens que não chegaram a se completar. São esboços daquilo que poderiam ser ou ter se tornado e, nesse contexto, a crise masculina da meia-idade, os projetos desfeitos, os vícios, as projeções dos egos e os conflitos interiores desnudam-se de forma muitas vezes egoísta e alienada.

Pieter carrega a culpa e o sentimento de alvo social resultantes de sua opção sexual. Jan é..., bem, Jan é um político. Amoral e sem escrúpulos, é aquele que, mesmo como hóspede, reforça e amplifica os temores e sentimentos negativos de Pieter sobre ele mesmo. Marten, mais impermeável às críticas ácidas dos amigos sobre os seus espetáculos, tenta reforçar as suas estruturas e manter-se de pé através de uma pretensa qualidade de potência sexual que começa a apresentar falhas. Já Tom, o advogado recém-saído de uma internação e da reabilitação, é o grito de revolta de toda uma vida sintetizado no vício da cocaína e reforçado pelo porte físico e pela brilhante atuação de Dalton Vigh.

Nessa ciranda adulta dançada na sala de Pieter fica claro que, se há algo que resta daquilo que um dia foi a sólida e intensa amizade entre aqueles ex-jovens, é a sua senha pessoal. A saudação Cloaca!, mesmo sem que os personagens se apercebam disso, é o chamado e o grito de guerra que exala e anuncia, a cada cena, os perfis dos esgotos interiores de cada um dos envolvidos.

Sob a direção sempre certeira de Eduardo Tolentino, o Grupo Tapa acerta mais uma vez. A cena final que explicita o destino de Pieter e a responsabilidade de cada um dos amigos nesse desfecho arremata um espetáculo onde o riso se dá sempre através de maxilares cerrados. Não há espectador, na faixa dos 40 anos, que não saia com um gosto amargo na boca. Um gosto de passado e sonhos frustrados que consideramos pessoais e intransferíveis mas que, em cena, acabam colocados como fato comum à categoria humana.

Na saída do teatro, os acordes e a letra de let it be funcionam quase como um conselho pessoal a cada um atingido pelo vórtice de sensações onde amizade, interesse e egoísmo são equilibristas em corda bamba.

Deixe estar.

     

domingo, 25 de outubro de 2009

Resenhando Williams

           

Assisti ao último espetáculo da temporada paulistana dessa que é uma das peças mais montadas de Tennessee Williams e, segundo a análise histórica, a mais auto-biográfica delas. Trata-se de “O Zoológico de Vidro”.

Parto desse fato pois o que poderia ser apenas uma contingência de tempo e espaço acabou por emoldurar uma história pungente de uma família à beira do destroçar. Consequentemente, se existe um adjetivo que poderia se aplicar para definir essa peça de Williams com uma só palavra seria “último”. O último sopro que apaga as velas e todas as esperanças na cena final. As últimas esperanças e sonhos de algo palpável do ponto de vista da mãe que se esvaem pelos seus dedos maternais. Último suspiro de uma família já há muito atingida pelos dissabores do destino.

A família em questão é o pequeno clã dos Wingfield, formado pela mãe, Amanda, um filho, Tom e uma filha, Laura. Esse triângulo de sensações e emoções poderia passar como banal se não resumisse de forma magistral os efeitos e vicissitudes de todo um tempo e época e, porque não, da maioria das relações familiares e cotidianas de cada um de nós.

Todo o desenrolar da peça se dá à sombra opressiva do retrato do pai na parede, que fugiu de casa e abandonou a família à própria sorte. É esse o ponto de partida para todos os efeitos e consequências desse ato sobre os demais componentes desse núcleo de pessoas que partilham de uma existência titubeante.

Narrada pelo filho Tom (Kiko Mascarenhas), a peça se desenrola num clima denso e obscuro. A iluminação é, na maior parte do tempo, tênue, e apesar de alguns diálogos terem uma vertente cômica, principalmente aqueles relacionados ao papel da matriarca que herdou toda a responsabilidade da família, os risos são nervosos. Nada é leve ou escapa do escrutínio cruel de uma vida que não demonstra fôlego suficiente para perdurar.

Tom pretende seguir os caminhos do pai e abandonar a família a qualquer momento. A mãe, exemplo clássico da nostalgia de um passado de glórias perfeitamente sintetizada por uma Scarlet O’Hara citada no texto, incorpora toda a decadência e derrota que até hoje, anos e anos após a guerra civil, ainda assola os americanos do sul. A cena em que ela busca o vestido antigo que lhe servia quando era cortejada por grandes fazendeiros é comovente. A entrada dela vestida de gala com esse mesmo vestido para o encontro do pretenso pretendente à mão de Laura cheira a naftalina e piedade. Nada mais que restos rotos de um passado de glória.

E por falar em Laura, chegamos aqui ao nervo mais exposto de toda a história. Interpretada por Karen Coelho de forma extremamente sensível, Laura é a filha mais atingida pela história emocionalmente distorcida da família. Para coroar seu papel de alvo primordial de todos os efeitos nefastos do dia-a-dia desse tabuleiro familiar, ela possui um defeito físico em uma das pernas que a impede de andar normalmente. De “defeito aparentemente imperceptível” para “aleijada solteirona” é uma questão de tempo e circunstância. Não existem filtros nessa onda de sentimentos, culpa e auto-piedade que assola a personagem. Tudo isso acaba sendo externado pela sua extrema timidez.

Em uma metáfora magnífica em sentido e significado, toda a delicadeza e fragilidade de Laura se projetam e ganham corpo no seu único hobby, que ocupa seu tempo após a desistência da escola, dos cursos tentados posteriormente e do viver, enfim: uma coleção de objetos e pequenos animais de vidro, a que a mãe denomina de “zoológico de vidro”.

Essa coleção frágil e bela, que resplandece aos poucos raios de luz que emanam da cena, permanece o tempo todo à vista do público. A cada conflito espera-se que alguém esbarre e destrua toda a frágil estrutura de madeira que mantém os objetos expostos. E essa sensação de insegurança e de que tudo pode desmoronar a qualquer momento acompanha os espectadores todo o tempo do espetáculo, deixando no ar um sentimento incômodo que é argumento e objetivo do texto.

Anunciado já no início da peça como um “símbolo” pela narração de Tom, surge, na segunda parte do espetáculo, a figura do amigo Jim O’Connor (Erom Cordeiro), seu colega de trabalho e ícone de paixão não correspondida de Laura nos tempos do colégio. Essa coincidência entre o personagem de um encontro que deveria ser entre um desconhecido aspirante a pretendente, e a pessoa que já figura há tempos nos álbuns mais secretos da menina, faz com que a mágica se faça e que Laura viva aquele que poderia ser o momento que daria um fim a uma existência sem sentido.

Apesar de infrutífero pelo fato de ele já estar comprometido, o diálogo entre os dois mostra empatia e uma fresta de luz para a auto-estima debilitada de Laura. A simbologia representada pela miniatura de um unicórnio de vidro que é quebrada na dança entre os dois fazendo com que o pequeno animal perca o chifre deixando-o semelhante aos outros cavalos e, portanto, afastando-o da situação de “aberração” é poética e emocionante.

Entretanto, essa fresta de luz logo se esvai. Na cena final, após a saída do amigo Jim e da partida efetiva de Tom, narrada por ele mesmo que acaba por abandonar a família para viver uma vida de aventura, a atitude da pequena e frágil Laura é definitiva e comovente. Ela apaga uma a uma as velas do candelabro que ainda lançam alguma luz sobre a cena. É o fim. A última possibilidade daquilo que poderia se chamar de família se esvai na escuridão. E é nessa escuridão que percebemos que todos nós estamos muito mais próximos da circunstância de fragilidade exposta pelas pequenas peças daquele zoológico de vidro do que supúnhamos.

No final, um ato de generosidade e um discurso emocionante de Cássia Kiss, que interpreta a mãe, Amanda, fecharam com chave de ouro essa rara oportunidade de assistir a uma montagem tão apurada de Tennessee Williams. Nos agradecimentos finais, fugindo do esquema de praxe, ela chama a pequena-grande Karen Coelho para um abraço apertado e um grande beijo de agradecimento. Ela ainda agradece, também, a todo o público paulista por entender, aceitar e reconhecer o que é o verdadeiro teatro, que é sua paixão.

Foi um momento de grande emoção que me fez descer as escadas rolantes da saída do teatro com um nó da garganta e a voz embargada. Tudo isso abençoado pelas imensas imagens de Raul Cortez, que empresta seu nome àquela sala de espetáculos.

Saravá!

        

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Correr na Praia

    




Corro no parque.

Sou um dos privilegiados que, mesmo numa megalópole, possui o privilégio do acesso fácil a uma área verde. No caso, o Ibirapuera, local lindo com nome sonoro e tradução absolutamente descritiva e desprovida de qualquer glamour na nossa língua-mãe tupi: pau podre.

De fato, basta uma chuvinha para que o parque resgate sua característica original e natural de brejo. É quando se percebe a impotência do homem em relação às mudanças das quais se considera capaz sobre a natureza. Mas, entretanto, não é disso que se trata esse texto. Fica para a próxima. Voltemos à corrida.

Correndo, pois, pela pista de cooper do parque, lembrei-me de que, algumas semanas atrás, estive no Rio de Janeiro a trabalho. E, como sempre que possível não descuido da minha corrida diária, assim o fiz na orla de Ipanema e Leblon tão familiar e conhecida desde meus tempos de infância.

Foi a partir dessa reminiscência de tão recente memória que me veio à mente uma discussão sobre um tema banal que ocorreu por lá e que se resumia à questão sobre o que é melhor, correr na praia ou no parque?

Obviamente que a primeira resposta, inclusive daqueles que moram em São Paulo e possuem um parque na porta de casa como era o caso do meu interlocutor, é líquida e certa: Praia. Pois bem; Ocorre que entre o escorrer de uma gota de suor e outra, dei-me conta que o banal escondia um pressuposto bem mais interessante que possui uma grande influência no imaginário humano e, por consequência, nas nossas escolhas e sonhos cotidianos.

Para quem não conhece o meu aeróbico espaço, imagine-se o ambiente comum a tantos outros parques. A pista onde eu corro é guardada por gentis sombras de árvores frondosas que deixam a temperatura amena e agradável. Os carros que circulam no entorno do ex-brejo mantêm-se a uma distância tal que faz com que seu ruído seja apenas uma lembrança sutil. E, para completar, sabiás, bem-te-vis e outros pássaros dão o ar de uma graça despudorada característica daqueles animais que já se acostumaram com a presença humana e não estão nem aí para ela. São passarinhos cosmopolitas, que cantam e tocam a vida sem se incomodar com o que outras criaturas estão fazendo ao lado.

Transportemo-nos agora, pois, para minha corrida na sem dúvida visualmente maravilhosa Ipanema, com Dois Irmãos ao fundo. Trata-se de um cartão postal lindo de se ver, e péssimo para se correr. O sol é inclemente, o ruído dos carros e ônibus que passam a apenas metros (às vezes centímetros) da ciclovia é ensurdecedor e trazem como brinde muita, muita fumaça. E a praia, idílica imagem, lá longe, parece um filme mudo de ondas silenciosas, uma vez que todo o ruído que poderia ser relaxante do quebrar das águas não é páreo para o motor a combustão.

Fato claro é que estamos tratando aqui de grandes cidades como São Paulo e Rio, e não qualquer um dos muitos lugares idílicos que ainda restam por essas paragens tropicais. Entretanto, paralelos colocados, como explicar o fascínio pelo correr na praia? Foi nesse ponto da indagação que a resposta veio nítida à minha mente: o fascínio pertence não ao ato, mas ao simbolismo. Quando as pessoas falam ou até mesmo praticam o correr na praia (e são muitas), transportam-se para uma grande ilusão coletiva, um cenário cognitivo que está colado lá nas mais profundas paredes do ser e que remete a uma praia deserta, cheia de coqueiros, com brisa e sons naturais. Trata-se de uma sensação ancestral que se transforma em experiência muitas vezes nunca tida, e que é prima-irmã do cavalgar na praia, sem sela ou laços, na mesma superfície de areias finas embrulhada de vento e liberdade, entre tantas outras.

Nisso tudo, o mais interessante é como nos deixamos enganar pacífica e tranquilamente por esse mecanismo que nos remete ao símbolo, à sensação, e não ao fato. Ao “correr na praia”, mergulhamos em um universo muito mais amplo e profundo que ignora as grandes avenidas e os sinais aniquiladores do progresso representado pela urbanidade. Temos essa facilidade. Colecionamos arquétipos que nos fazem aceitar e acreditar que vivemos determinadas experiências mesmo que a realidade seja muito distante daquilo que imaginamos, apenas aproveitando-nos de um elemento lúdico que faça parte de uma determinada fantasia comum.

Nessa mesma linha encontram-se os lugares da moda e o viajar no feriadão, por exemplo. O que explica o ato de transportar-se com armas e bagagens, família, sogra, cunhados e periquitos para um final de semana prolongado de filas e privações nos grandes balneários? E aquele lugar que não é tão bom assim, mas que é fundamental para seu “curriculum social” que você tenha estado lá? A resposta está no intangível. Na ilusão coletiva que reside muitas vezes no universo da irracionalidade. E na rede fina das aparências sobra apenas o “Estive em tal lugar no feriadão e foi ótimo! Você perdeu!” ou “Você ainda não esteve nesse lugar? Precisa ir. É imperdível!!”

Pois sim, a existência humana é, definitivamente, surpreendente. Como ocorre na circunstância de uma veia obstruída no sistema sanguíneo, o viver encontra outros caminhos que fazem correr sua seiva para que a essência da alma permaneça firme e angarie suas recompensas. Trata-se de mágica extra-humana. Ilusionismo que faz com que a vida se perpetue com o conforto mínimo de experiências que possuem sua parcela de êxtase encravada num parecer - ao mesmo tempo lúdico e irreal - que extrapola a experiência em si.

Ah, o ser humano... Quanto pensar numa simples corrida por um brejo disfarçado!
                  

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Resposta a Martha Medeiros - Os Ausentes

         

Prezada Martha,

Sou um admirador seu. Aprecio seus textos como quem aprecia um bom vinho, que alimenta, aquece e embriaga levemente.

Ainda, e já isentando esse texto de qualquer condenação, não creio em super-seres. Homens ou mulheres. Gente é assim. Falha. Os melhores maratonistas tropeçam, os melhores malabaristas caem. É simples e humano.

Aproveitando essa deixa, olha, Martha, coitado do Joaquin... Julgado e crucificado entre as suas linhas por um equívoco de pensamento daqueles que acontecem de vez em quando. A gente acorda mal, aquele gosto ruim na boca e na alma, e é obrigado a cumprir uma tarefa extremamente ingrata naquelas condições físicas e mentais. Escrever ou pegar numa enxada, dar uma entrevista ou ir para uma reunião no escritório, não importa. Fazer as coisas contra a vontade, ao contrário do que você afirma, dói sim. E quanta dor e cansaço há nesse texto, não?

Sou um defensor do viver de dentro para fora. O resto são condições e regras de comportamento geralmente arbitrárias com as quais a gente, sim, é obrigado a conviver mas absolutamente não precisa partilhar, absorver ou mimetizar. Expressar essa verdade é legítimo. Disfarçá-la com sorrisos frios é lobotomia social.

Martha, querida, que fique claro mais uma vez que estou aqui lhe defendendo e não acusando. Gostaria mesmo que você tivesse ficada deitadinha, encolhidinha, posição fetal, nesse dia aparentemente tão azedo. Viu só no que deu você se esforçar para sorrir para a platéia? Não deu certo. É chato. Compromete a gente. Vale a descompostura?

Existem diversas brechas no seu texto ótimas para se encaixar algumas bananas de dinamite, mas sua inteligência não permite certas incoerências e, assim que você as comete, a escritora sagaz trata de sabotá-las mesmo que instintivamente.

Explico: você mesma diz "quando uma pessoa se dispõe a dar uma entrevista..." e pronto. Dinamite aí. Quem disse que o coitado do Joaquin se dispôs? E a santa maria do rock? Será que ambos não preferiam ficar tranquilamente na mansão deles, na mesma posição fetal que é democraticamente comum a todos?

Realmente não há super-seres. Existem é super-contratos que nos obrigam a determinadas coisas, assim como maridos insensatos e esposas insensíveis que chantageiam por caminhos tortos. Nesses casos, Martha, grosseria é obrigar alguém e exigir que esse alguém não expresse o descontentamento com um ou outro muxoxo. A cara feia aqui é legitimidade. É defender implacavelmente a humanidade. Decerto o Quinzinho preferiu ouvir o que ouviu do Letterman a ser mais uma entrevista sonolenta, morna e sem sentido. Palmas pra ele.

Mas, Marthinha, é bom deixar patente nessa altura do papo que sua obra lhe redime. É crueldade se ater a esse texto quando o conjunto é tão generoso e brilhante. Melhor esquecer. Ou melhor, não...

...Vale ainda um confete: você é boa até quando é ruim. Senão, analisemos sua última frase agora com a mente mais clara. Há uma incongruência ali que entrega a inconsistência do raciocínio mas nos permite um reparo. O "se não quiser participar, tudo bem..." é perfeito, mas não combina com o ser obrigado pelo marido, mulher ou quem quer que seja a fazer o que não se quer e sorrir socialmente para não ser grosseiro. Uma coisa elimina a outra e o tropeço vem.

Vamos assumir o conflito: devemos, sim, brigar para não sermos obrigados a determinadas coisas e, quando o somos, não há a obrigação de sorrisos-de-mona-lisa. Aqui, nessa sua última linha e ao contrário das regras matemáticas, a ordem dos fatores altera o produto. Permita-me:

"Melhor (para a humanidade) uma ausência desaforada do que uma presença meramente honesta"

Perdoe-me a ousadia.

Abraços.




Os Ausentes - Martha Medeiros

Eu não assisti ao programa, mas soube da história. O jornalista David Letterman recebeu Joaquin Phoenix para uma entrevista. O ator fez juz à fama de bad boy: não parou de mascar chiclete e só respondia com monossílabos e grunhidos, não facilitando o andamento da conversa. Letterman tentou, tentou e, como não conseguiu arrancar nada do sujeito, encerrou a entrevista com uma tirada que me pareceu perfeita: “Joaquin, uma pena que você pôde vir esta noite.”

Quando uma pessoa se dispõe a dar uma entrevista, tem que entrar no jogo: responder com generosidade ao que foi perguntado e valer-se de uma educação básica, caso tenha. É bom lembrar que a maioria das entrevistas não é feita apenas para dar ibope ao programa, e sim para ajudar na divulgação de algum projeto do convidado. Ambos saem ganhando. Só quem não ganha é a plateia quando o convidado finge que está lá, mas não está. Madonna é até hoje o trauma da carreira de Marília Gabriela, pelos mesmos motivos.

Claro que há quem defenda a atitude de Phoenix com o argumento da “autenticidade”, mas existe uma sutil diferença entre ser autêntico e ser grosso. É muita inocência achar que podemos prescindir de uma certa performance social. Espero não estar ferindo a sensibilidade dos “autênticos”, mas de um teatrinho ninguém escapa, a não ser que queiramos voltar a viver nas cavernas.

Não sou de me irritar facilmente, mas acho um desrespeito quando uma pessoa faz questão de demonstrar que não compactua com a ocasião. São os casos daqueles que se emburram em torno de uma mesa de jantar e não fazem a menor questão de serem agradáveis. Pode ser num restaurante ou mesmo na casa de alguém: estão todos confraternizando, menos a “vítima”, que parece ter sido carregada para lá à força. Às vezes, foi mesmo. Sabemos o quanto uma mulher pode ser insistente ao tentar convencer o marido a participar de um aniversário de criança, assim como maridos também usam seu poder de persuasão para arrastar a esposa para um evento burocrático. Não importa a situação: saiu de casa, esforce-se. Não precisa virar o mestre de cerimônias da noite, mas ao menos agracie seus semelhantes com dois ou três sorrisos. Não dói.

Dentro da igreja, ajoelhe-se. No estádio de futebol, grite pelo seu time. Numa festa, comemore. Durante um beijo, apaixone-se. De frente para o mar, dispa-se. Reencontrou um amigo, escute-o.

Ou faça de outro jeito, se preferir: dentro da igreja, escute-O. Durante um beijo, dispa-se. No estádio de futebol, apaixone-se. De frente pro mar, ajoelhe-se. Numa festa, grite pelo seu time. Reencontrou um amigo, comemore.

Esteja, entregue-se.

Se não quiser participar, tudo bem, então fique na sua: na sua casa, no seu canto, na sua respeitável solidão. Melhor uma ausência honesta do que uma presença desaforada.
   
           

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Resenhando Hamlet

                  

"What a piece of work is man. How noble in reason. How infinite in faculty. In form and moving how express and admirable. In action, how like an angel. In apprehension, how like a God. The beauty of the world. The paragon of animals. And yet, to me, what is this quintessence of dust. Man delights not me..."

- from Hamlet, by William Shakespeare

Foi-me pedido, em um trabalho acadêmico, para fazer uma resenha de um entre três títulos de filme pré-determinados.

Antes de mais nada, pensei muito ao me atrever a resenhar Hamlet, um dos meus personagens favoritos e com o qual travei contato ainda muito cedo, muito jovem. Li o livro em português, me atrevi no original em inglês, passei pela versão cinematográfica do Olivier e, agora, decidi assistir à versão dirigida por Franco Zeffirelli, com um surpreendente Mel Gibson no papel-título e uma bem escolhida Glenn Close como a Rainha Gertrudes.

Não é meu objetivo, aqui, uma comparação entre essas versões. Cada uma tem seu espírito, seu tempo e seu valor artístico. Zeffirelli persegue uma linguagem mais acessível que faz inteligível para a grande massa textos clássicos e complexos desde seu “Romeu e Julieta”. E apesar de haver uma grande carga de preconceito quanto a isso junto aos puristas, palmas pela direção que torna mais palatável e possível para grande parcela da população o contato com textos e personagens tão ricos.

A partir daí, e ciente do amplo universo de resenhas já existentes sobre a obra em questão que a contam e recontam, decidi por uma dissertação mais simbólica baseada nos meus sentimentos pessoais sobre a história.

Nesse sentido, a frase reproduzida no inicio da página - do original em inglês - traduz, a meu ver, todas as nuances e descompassos que envolvem a percepção humana nessa obra. Hamlet, nesse monólogo, tece considerações sobre o ser humano. Descreve-o como a mais perfeita forma animal, obra-prima de Deus em movimento, expressão e entendimento para, logo depois, ressaltar a sua falta de importância como quinta-essência do pó.

É essa montanha russa emocional e filosófica que faz de Hamlet um dos pilares da literatura mundial e um dos papéis mais complexos de ser interpretado. Da visão do fantasma de seu pai que lhe revela ter sido assassinado pelo próprio irmão à constatação dessa traição do tio com a mãe, o processo de vingança e loucura que acomete o príncipe da Dinamarca é, ao mesmo tempo, tenebroso e sublime. Reflexo claro da definição humana proferida por ele próprio na frase inicial dessa resenha e que faz sua existência insuportável frente à tamanha lucidez.

Na sua insana busca pela vingança ele se vê aprisionado dentro de um labirinto mental e emocional que nunca o leva à atitude suprema que consumaria o seu objetivo principal. O desejo de atender o desejo do espírito do pai é cercado pela moral, pelos pensamentos e pelo intelecto que armam, o tempo todo, ciladas que o levam à espiral de loucura e sanidade que, intercaladas, constroem um texto que avança caudaloso e feroz como as corredeiras de um rio.

Sua loucura, aliás, é ferramenta e destino. Atormentado pela visão e revelações do pai morto, ele se apossa da vertente da demência para poder traçar todos os seus planos de vingança com mais liberdade. Afinal, aos loucos tudo é perdoado e nada é crível. Assim, ele pode falar o que quiser e ouvir conversas e comentários que vão montando todas as peças de seu quebra-cabeças pessoal sem ser importunado. E assim, ainda, ele acaba por se envolver de tal forma em seu plano de justiça que as fronteiras da loucura começam a se tornar por demais tênues.

Em seu caminho, da aparição fantasmagórica do velho rei ao final trágico de toda a família real, nada mais tem consistência. Sacrifica o amor de Ofélia na dúvida sobre a sua lealdade. Num ambiente cada vez mais contaminado pela falta desse sentimento e pelas intrigas incessantes, como saber que é quem? Cláudio, o rei assassino, é a deslealdade personificada. A mãe, Rainha Gertrudes, que é cúmplice e casa-se com o cunhado apenas dois meses após a morte do marido, não é símbolo algum de virtude. A falsa lealdade bajuladora de Polônio e toda a realidade nefasta do dia-a-dia da corte constroem, enfim, o cenário ideal para o questionamento sobre a índole humana e a execução da vingança a qualquer custo.

Nesse caminho, não importa mais matar ou morrer. E é essa solidez de princípios num ambiente formado de hipocrisia e falsidade que faz do príncipe vingador um personagem irresistivelmente sedutor para as platéias. A busca pela justiça, inerente a todos os seres humanos, permeia cada cena e fala da história.

O fato é que, com esse objetivo em mente, não há como voltar atrás. Loucura ou ferrenho apego ao destino lhe dado pelo pai, a trajetória do príncipe Hamlet faz com que, tal como um bobo da corte ensandecido, ele desmonte uma a uma as aparências e artimanhas ao seu redor através de textos revestidos de metáforas que traduzem duras verdades.

A morte de Ofélia afogada no rio, louca de amor e decepção, traz à tona a falta de importância de qualquer outro objetivo de Hamlet que não seja a vingança do pai. O amor, simbolizado na ingênua Ofélia, é afogado junto com a personagem uma vez que não tem lugar no processo.

Acionado o moto-contínuo da vingança, nada mais resiste. Mortes se sucedem. Hamlet mata acidentalmente Polônio, o pai de Ofélia, iniciando o processo real de loucura da sua apaixonada. A partir daí, de modo que os conchavos do rei para matar Hamlet tomam forma, os corpos caem como sinal único daquilo que restará após a vingança.

Os falsos amigos Guildenstern e Rosencrantz, Laertes, o irmão de Ofélia, a rainha-mãe, o rei nefasto e o próprio Hamlet. Todos tombam deixando um rastro trágico de sangue.

Inevitável acompanhar Hamlet sem tomar seu partido, apoiando cada atitude exacerbada e insana na sua busca por justiça. O fiel amigo Horácio, único poupado na sua sanha vingativa, honra a sua lealdade ficando ao lado do príncipe até o final. Horácio simboliza, de fato, a única espinha dorsal consistente em valores humanos numa realidade que se desfaz.

E é de posse desse simbolismo que ele ampara o amigo em seus momentos finais, quando Hamlet profere suas últimas palavras traduzindo o epitáfio perfeito da lápide que sintetiza a tormentosa jornada do príncipe da Dinamarca:

“O resto é silêncio”.
              

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O Caminho Suave

       

Sou da época do caminho suave. Para quem não sabe, a Caminho Suave era uma cartilha, instrumento pré-histórico onde muita gente boa aprendeu o be-a-bá.

Mas não me aterei à cartilha nesse momento. Ela entra apenas como um ótimo título para esse papo. Interessante mesmo é que, quem se lembra da Caminho Suave, com certeza se lembra ainda com muito mais ímpeto e carinho da Coleção Disquinho.

Assim como a Caminho Suave nos ensinava a soletrar e os aspectos técnicos da língua e do falar, a Coleção Disquinho nos ensinava fantasia e moral. Sim. Lições de moral embrulhadas em contos infantis numa época onde o planeta ainda não havia sido devastado pela praga espúria do “politicamente correto”.

Senão, vejamos: o lobo era mal. Ponto final. O saci era preto. E preto era preto sem traumas. Na boa. A Chapeuzinho Vermelho andava por lugares ermos. E sozinha. E, como gran finale, acabava por assistir, gratificada, o caçador dar um tiro no lobo travestido de vovozinha e enfiar um facão na barriga do bicho tirando a velhinha lá de dentro. Inteirinha. Tudo preto no branco. Sem patrulhas de gênero ou de cor.

Hoje, o embotamento é que vem travestido do politicamente correto. Nada pior, mais nocivo, do que a total ausência de convicções embrulhada numa convicção sob encomenda. Para frequentar o shopping.

Esse tema veio à minha mente quando, ainda ontem, assisti em um programa de notícias da TV paga (outra evolução para quem se lembra dos controles de vertical e horizontal), uma entrevista junto a crianças do primeiro grau onde elas falavam sobre a importância da água.

Uma pequena, linda e estranha criatura dizia, toda satisfeita, que passou a controlar o tempo de banho dos pais. Havia algo de pernicioso naquela criança, algo de zumbi, de nefasto, traduzido inclusive na clara subversão do respeito relativo ao pátrio poder. A razão para tal determinismo? Porque água era um bem precioso e estava “acabando”. E que, por isso, era responsabilidade de todos a sua preservação e economia. Ela, inclusive, também fecha as torneiras que pingam. Do contrário o desastre seria iminente. Tudo tão correto. Tudo apreendido na escola.

Que bom seria se alguém tivesse a coragem de apresentar claramente para essa nova geração os fatos como são! Mas o que assistimos pacificamente é um festival infinito de irracionalidades e cegueira. A tranqüilidade vem do “politicamente correto”. E, confesso, chego às raias da loucura ao ver a expressão “correção” tão inadequadamente aplicada.

De volta para o futuro: o planeta Terra levou bilhões de anos para construir um sistema hídrico perfeito. E trata-se de um sistema fechado. Não se “cria” água. Não se “acaba” com a água. A água é exatamente a mesma desde que o mundo é mundo. E o mundo é mundo, para nós pobres entidades carboníferas prepotentes, desde que pisamos por essas paragens pela primeira vez, mesmo ele sendo mundo já bem antes.

Não, a água não está acabando, minha pequena garota tomada de infanto-ecologica histeria. Temos é gente demais no planeta. Muita gente para a mesma quantidade de água. E gente mal-educada. Poluente. E não há banho curto que dê jeito. É triste, mas é lei, ensinava minha mãe.

Entretanto, não tocamos jamais nesse assunto. Nada mais politicamente incorreto do que falar claro. Aliás, deixemos bem claro: existe algo mais patético, mais ofensivo intelectualmente do que um crédito de carbono? Como acreditar nisso? Curupira, Caipora, são mais factíveis. Mas essa garota vai comprar um assim que for possível para dormir o sono dos justos. E plantar árvores. Sim, muitas árvores para compensar o rastro deixado pelo avião na última viagem à Disney.

Criança... tome seu banho de meia hora, mas use camisinha. Desenhe na sua folha de papel e plante árvores por prazer e não por culpa. Mas, entre um desenho e outro, um send e outro para a impressora, se instrua sobre métodos anticoncepcionais.

Não há natureza de menos. Há gente demais. E o planeta não suporta. E a natureza reage. E estará exuberante assim que nos retirarmos de cena. Por bem ou por mal. Afinal, o equilíbrio ecológico não é de fora para dentro. O ser humano é o fator desequilibrado da equação do equilíbrio. Simples assim. Matemática elementar.

Mas a patrulha da correção política vai além. Grassa por paragens várias. Começamos a criar no Brasil, por exemplo, um problema de racismo que nunca tivemos nesse cenário trigueiro. Estamos fazendo o tal povo mulato e inzoneiro engolir e aprender à força sobre cotas raciais. Caminho nada suave esse.

Assistimos ainda a propagandas na TV. Todas iguais. E publicitários que debatem sobre a falta de criatividade e pasteurização da mensagem. Óbvio. Quando todos querem ser a mesma coisa, não há como o resultado ser criativo ou diferente. E, na comunicação, é importantíssimo que todos sejam politicamente corretos. Ecologicamente equilibrados.

Ah, como seria interessante, criativo e muito mais eficaz para o bem estar mundial ver uma marca de cosméticos apregoar “use nossos produtos e nós distribuiremos 10 kits contraceptivos em seu nome para o equilíbrio do planeta”! Mas preferimos a falseta das árvores.

Aliás, no segmento imobiliário da cidade de São Paulo, todos os lançamentos possuem, embutidos, bosques maravilhosos e ricos de vida natural. Se seguirmos nessa trilha, teremos muito em breve uma metrópole de parques e matas! Puro embuste.

E tudo alinhavado com a linha insossa e cinza do politicamente correto. Afinal, se não é possível tocar-se na ferida real, se são pessoas que consomem, trabalham e compram mais, e se quanto mais, melhor, dane-se a água! Troco sua culpa por uma muda de eucalipto.

. . . . .


Para quem não viveu, os vinis da Coleção Disquinho eram coloridos. Como eram coloridas as suas histórias e suas lições. Totalmente incorretas para os atuais parâmetros. E como era gostoso ouvi-los! Além da já citada Chapeuzinho (com o tal lobo que fazia mingau de criancinhas), tinha a Dona Baratinha (aquela da fita no cabelo e dinheiro na caixinha, prontinha pra comprar um marido), a Branca de Neve (que dormia com sete anões), os Três Porquinhos, a Cinderela, quanta cor, enfim...

Que pena daquela garota do telejornal que tem que se contentar com um crédito de carbono!